segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A Interessar, uma questão de experiência.


“A Produção Teatral a gente aprende é fazendo” foi a frase que incentivou o interesse por esta pesquisa após uma conversa informal com a professora Tissiana Carvalhedo na disciplina Práticas de Produções de Espetáculos 2014.2, porém antes de preludiar esse capítulo, é necessário expor como a Produção Teatral virou o campo de pesquisa, trabalho e vida da discente que agora vos disserta, pois foi a partir da minha trajetória acadêmica na Universidade Federal do Maranhão que adquiri minhas primeiras experiências no campo da Produção no qual me fez percorrer um caminho que culminou na minha formação técnica em Produção Cultural no Instituto de Ciências, Tecnologias e Educação do Maranhão - IEMA em 2017 e na questão que norteia toda esta pesquisa – De que forma as companhias de teatro produzem seus espetáculos em São Luís?

Em meados de 2009, vivi minha primeira experiência como plateia, era apenas uma adolescente encerrando o ensino médio, e fã dos atores que jogavam improviso teatral no programa Quinta Categoria da MTV, quando fiquei sabendo da vinda do grupo para várias sessões no Teatro Arthur Azevedo, com a produção de Moraes Jr Produções, que é Produtor Cultural de Espetáculos teatrais em São Luís, fui assisti-los, era a primeira vez que eu conhecia o Teatro Arthur Azevedo, e um espetáculo com jogos de improviso.


Guardo na memória a ansiedade que tive ao esperar na fila, o encantamento ao conhecer o teatro, de estar feliz em ver os atores em cena, ao encerrar o espetáculo tirei fotos, e quando cheguei em casa, contei à todos a experiência que vivi, afirmando que todas as pessoas deveriam passar por isso pois era extremamente prazeroso. A partir daí, passei a frequentar cada vez mais o teatro, e a participar de montagens teatrais e vídeos na escola. 


Passou-se alguns anos e em 2011.2 ingressei no curso de licenciatura em Teatro e quando cursava o segundo período do curso no semestre 2012.2, concorri a uma vaga de estágio não-obrigatório no Teatro Alcione Nazareth e obtive aprovação. No primeiro dia do estágio, Hélida Santana, a Diretora do teatro na época, comentou que para trabalhar na Administração do Teatro, os funcionários devem gostar dos bastidores.

O estágio no Teatro Alcione Nazareth durou quase dois anos (11/2012 a 10/2014), no primeiro ano do estágio, o conhecimento que adquiri era empírico, ou quando alguém mais experiente me ensinava, foi assim que percebei o quão importante eram as funções administrativas para o funcionamento do teatro principalmente na relação entre a administração do teatro, secretaria de cultura e produtores e fazedores de teatro contribuindo para o fomento da atividade teatral na Cidade.

Por diversas vezes comparei os modos de produção realizados na UFMA com os modos de produção que aconteciam no Teatro Alcione Nazareth, e com a pouca experiência da época observei que o objetivo de ambos eram distintos, as produções dentro da universidade possuíam a finalidade avaliativa e/ou experimental, enquanto que as produções de fora da academia tinham o intuito de ser um bem ou prestar serviço.
A minha função como estagiária no Teatro Alcione Nazaré; era auxiliar-administrativa, onde executava atividades burocráticas como por exemplo: digitar contratos para a reserva de pautas, organizar e reservar as pautas, digitar ofícios para solicitação de demandas, acessar, responder e-mails, atender telefonemas, organizar os contratos de acordo com o mês, digitar e assinar recibos. No dia em que havia espetáculo, os estagiários cuidavam da recepção, da contagem de ingressos e do bordereau. E se caso tivesse interesse, envolvia-se com a parte técnica porém o financeiro ficava por responsabilidade do Diretor do Teatro.

A experiência de estagiar no teatro me concedeu a oportunidade de assistir vários espetáculos, o contato direto com essas produções, fizeram-me perceber que tanto o teatro amador quanto o teatro profissional, haviam produtores e/ou atores realizando as funções de planejar, organizar e executar o espetáculo. Porém depois de todo esse trabalho, deparar-me com a plateia vazia ou pela metade era algo que desconcertante porque eu acompanhava indiretamente o processo, e a medida que os meses passavam, adquiria mais entendimento sobre de que forma as produções funcionavam, sentia necessidade de fazer algo pois a falta de público aconteciam com as produções locais e com as produções de fora do estado, fossem elas produzidas de forma independentes ou subsidiadas com leis de incentivo e/ou editais.

Contudo, uma espetáculo local destacou-se nessa época, era a comédia “Pão com Ovo”, que por onde passava lotava teatro, alguns colegas do curso de teatro comentavam que o espetáculo era maravilhoso e sucesso de público. Eles estiveram no Teatro Arthur Azevedo, quando então reservaram várias pautas no Teatro Alcione Nazareth para um mês em cartaz, sempre as sextas, sábado e domingo com 3 sessões cada dia, contabilizando no final do mês 36 sessões de casa cheia e altamente lucrativa. Na época, ao contabilizar esses dados, fiquei atônita. Como é que um espetáculo com produção realizada pelos próprios atores de forma independente conseguia tamanho sucesso apesar das dificuldades locais e além disso, cativar público e ser auto rentável?

Desde então, passei a acompanhar o processo do espetáculo Pão com Ovo, como estudante de teatro que iniciava suas primeiras investigações sobre o fazer Produção Teatral na perspectiva do mercado cultural.
A data de encerramento do meu estágio no Teatro Alcione Nazareth aconteceu em setembro de 2014, nessa mesma época ficaram disponíveis duas vagas de estágio não-obrigatório no Sesc/MA, uma das instituições que tem grande participação no fomento do teatro na cidade, concorri a uma dessas vagas e após o processo seletivo que incluíam analise de histórico acadêmico e entrevista, logrei aprovação, abdicando-me das últimas férias no Teatro Alcione Nazareth pois o primeiro dia do meu estágio no Sesc/MA aconteceu no início dia das férias.
O estágio no Sesc/MA era parcialmente diferente do meu estágio no Teatro Alcione Nazareth, mas foram complementares para minha jornada na produção. Em ambos, as atividades de auxiliar administrativo coincidiam no entanto, as atividade de auxílio a produção eram diferente porque no Teatro Alcione Nazaré, eu apenas observava a produção no momento em que ela acontecia, acompanhava a chegava, a divisão de equipes; um grupo montando o plano de luz e som, enquanto o outros iam pra bilheteria ou se preparar para a cena e assim por diante. Já no Sesc encontrei outras esferas de produção, e passei a ser executora sob a supervisão do técnico de cultura, assim eu realizava várias ações entre elas: reservava as pautas, contatava grupos, participava ativamente da elaboração dos planejamentos, de todas as etapas de produção de projetos, espetáculos, mostras, oficinas, festivais e etc.
Descobri com isso, a existência de diversas camadas nos espetáculos, e que para todos os tipos de atividade artística e cultural elabora-se um planejamento ou projeto escrito para nortear o trabalho de toda a equipe de produção, dá pra produção mais simples à mais complexa, é necessário o planejamento.


Ainda no meu primeiro ano de estágio no Sesc, que assim como no Teatro Alcione Nazaré durou dois anos (08/2014 à 12/2015), as experiências me encorajaram a aventurar na Produção Teatral, visando-o como um campo de pesquisa, estudo e quem sabe como um meio de trabalho para meu sustento financeiro.

Enquanto isso, na UFMA havia uma página no Facebook que estava bastante popular entre os discentes, chamada Segredos UFMA, que postava acontecimentos e vídeos sobre a vida dos universitários, e um vídeo despertou a minha atenção, no qual um discente do curso de Engenharia Química, chamado Genésio Rosado* fazia uma apresentação de Stand Up Comedy* na recepção de calouros do mesmo curso, nesse época, em São Luís o Stand Up Comedy ainda era uma novidade, comentei na postagem como sugestão ao discente que ele já podia reservar pauta no TAN para uma produção do seu show, na época não obtive resposta.
Entretanto, um tempo depois iniciamos uma amizade através das redes sociais e entre conversas sobre comédia, teatro e produção planejamos o Espetáculo Natalino com Piadas Salgadas de alcunha I Festival de Stand Up Comedy da UFMA para que não fossemos censurados por justificação dos trocadilhos com o nome do então Reitor da UFMA, que na época era Natalino Salgado* e como
aproximava-se do natal, o nome escolhido encaixava-se a temática da época.

I Festival de Stand Up Comedy na UFMA
Fonte: Arquivo Pessoal
Minha primeira experimentação como produtora aconteceu na UFMA, pela primeira vez eu não estava sob a supervisão técnica, talvez por isso o fiz de forma intuitiva e sem projeto escrito, no entanto, com base nas experiências que vive em ambos estágios fui direcionando minhas práticas, meu objetivo era produzir um evento na para a comunidade acadêmica da UFMA, e diante desse objetivo, fui realizando as ações necessárias para que ele acontecesse, como por exemplo: reservei o auditório setorial do Centro de Ciências Humanas da UFMA para o dia 25 de novembro de 2014, às 12:30, escolhi esse horário pensando no horário que os alunos  almoçam na  no Restaurante Universitário, quem tivesse interesse em assistir, teve de 11 horas até 12 pra almoçar e encaminhar-se para o CCH.
Depois de reservar auditório e definir datas, selecionei os alunos da UFMA que tinham interesse em apresentar Stand Up Comedy, e além disso, confeccionei os ingressos, produzi os designers gráficos dos espetáculos, contatei as principais páginas de Facebook na UFMA, pra divulgar e sortear ingressos, coloquei todos os alunos que iam apresentar para vender os ingressos à R$ 5,00 (cinco reais), conversei com os responsáveis pelas lanchonetes próximas ao CCH para serem pontos de vendas e divulgação, passamos várias semanas divulgando o evento no Restaurante Universitário da UFMA, com os seguinte recursos materiais: Data show e caixa de som do Centro Acadêmico de Engenharia Química.
No dia da realização do evento, haviam 300 pessoas em um auditório com capacidade para 330 pessoas, avaliei esse resultado de forma positiva. A apresentação teve seus altos e baixos, alguns rapazes foram muito bem e outros muito mal, no entanto, o público sabia que ali haviam pessoas apresentando um texto de Stand Up Comedy pela primeira vez. Ao término da apresentação, contabilizamos a bilheteria, foi 30% para a produção, 20% para Genésio Rosado e 50 % dividido entre os alunos que apresentaram. E dias após a realização, recebi mensagens de alunos perguntando quando teria o próximo evento, isso me motivou a produzir mais.


Sinto a necessidade de destacar que desde as primeiras experimentações na UFMA sempre tive assistência dos amigos de turma, mais próximos pois sozinha eu jamais teria conseguido tamanho progresso. No semestre seguinte 2014.2 iniciou o meu quarto período e com ele a disciplina Práticas de Produção de Espetáculos, na época ministrada pela professora substituta Tissiana Carvalhedo, que ensinou a turma sobre o conceitos relativos à cultura, economia criativa, bens culturais e mercado cultural, posterior à esse momento, organizou a turma em grupos e nos ensinou a identificar demandas e anseios pessoais para a concepção de um projeto cultural possuindo como guia o edital Amazônia Legal.
Meu grupo era composto por três pessoas, eu e as alunas Priscila Cardoso e Carolina Simões, juntas planejamos o projeto “Humor de Segunda*” que tinha como objetivo oferecer ao público maranhense apresentações de Comédia Stand Up com artistas locais todas as segunda-feira em algum teatro na cidade de São Luís, o espetáculo visava também a valorização da acessibilidade aos portadores de mobilidade reduzida e necessidade especiais – auditiva e visuais.




Após os projetos prontos e apresentados, a professora iniciou uma votação para que a turma escolhesse qual projeto seria executado como avaliação final de turma, em votação o projeto “Humor de Segunda” (Apêndice 2) foi selecionado para ser produzido. E na finalização do semestre, a professora organizou a turma em grupos de trabalho, onde cada grupo ficava responsável por alguma demanda da produção do projeto, por exemplo: GT de divulgação, GT de acessibilidade, GT de Apoio, GT de registro.
Desse modo, o Projeto realizou-se no dia 12 de janeiro de 2015 às 12:30, no auditório setorial do CCH (Centro de Ciências Humanas), o projeto teve êxito em vários aspectos no planejamento, na colaboração na execução das atividades, e sobretudo na participação da turma, não havia hierarquia, tudo aconteceu de maneira colaborativa. No entanto, o nosso público-alvo que era os universitários da UFMA, os alunos da ESCEMA* e os alunos da CAS* estavam todos de férias e diante desse imprevisto, o público contemplado pelo projeto foi abaixo do esperado. No entanto, a finalidade do projeto era avaliativo, onde prevalecia o envolvimento da turma, logo conclui-se que o processo foi satisfatório.
Nesse mesmo ano, produzi mais dois eventos na UFMA, intitulados “CoffeeBreak”, assim consegui fechar o primeiro contrato para três apresentações deste mesmo espetáculo no Pátio Norte Shopping*, houve então um aumento considerável de procura, e eu fui imergindo nesse mundo da produção, transformando-o no meu trabalho.




No início de 2016, firmei parceria com o comediante Genésio Rosado e iniciamos um projeto de fomento a comédia Stand Up em São Luís, ele que havia retornado pra São Luís, após participação no Prêmio Multishow de Humor* no Rio de Janeiro, queria descobrir e incentivar pessoas com aptidão para o Stand Up Comedy, assim como eu queria experienciar a produção fora do contexto acadêmico e tentar a inserção no mercado artístico de São Luís, sendo assim, produzi meu primeiro evento fora da Universidade, intitulado “Genésio Rosado convida” onde o objetivo era convidar um comediante de outro Estado para apresentar com ele, e também com pessoas que quisessem experimentar o palco pela primeira vez, em seguida, produzi o “1º Torneio de Stand Up Comedy de São Luis”, “Noite de Open Mic”, “Ultimate Fight Comedy”, 2ª Torneio, 3ª Torneio, 4ª torneio e atualmente já vamos para 5 º Torneio de Stand Up Comedy de Slz. Essas produções eram autossustentáveis, toda a arrecadação vinha da bilheteria, não tínhamos patrocínio mas tínhamos parcerias na divulgação, os instagrans Sensacionalista Slz, Ludovicenciando e Ilha da Depressão que juntos contabilizam mais de 1 milhão de alcance, investíamos dinheiro nosso para iniciarmos a produção, mas esse dinheiro retornava da bilheteria que era dividido da seguinte forma: 20% produção, 30% próxima produção e 50% era dividido entre os artistas, Genésio Rosado e quem ele convidasse para apresentar.



Ainda em 2016, o Governo do Estado do Maranhão com o então Governador Flávio Dino ofertaram o curso técnico de Produtor Cultural no Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão*, e através de seletivo que utilizava a nota do Enem como critério de aprovação, concorri e obtive aprovação na primeira chamada. Nesse curso, pude imergir na teoria que fundamenta a cadeia produtiva da cultura e das artes em geral, estudei sobre as políticas culturais, os planos nacionais, estaduais e municipais da cultura, os tipos de produções culturais e eventos culturais, a Industria Cultural, as formas de subvenção (independente, leis de incentivo, editais, apoios e patrocínios), aprendi mais sobre o Maranhão e suas potencialidades Artísticas, Turísticas e Culturais através de pesquisas de campo, bibliográficas que foram realizadas em São Luís.

Ao término do curso, foi solicitado que a turma realizasse a Produção de um evento cultural para receber a certificação de conclusão do curso, a minha turma escolheu produzir o 1º Seminário de Produção Cultural de São Luís, cada parte do projeto foi escrita por uma equipe de trabalho, e o projeto realizou-se nos dias 10 e 11 de agosto com programação composta de mesas interativas, oficinas, feiras de negócios, exibição de filmes, exposições, festa temática, atrações artísticas e culturais.
Contudo vale ressaltar, que toda a captação de recursos do evento foi feita de forma colaborativa e sem subvenção estatal, todos os recursos foram captados através de auxílio financeiro ofertado por cada aluno, permutas com os feirantes da Casa das Tulhas* e comerciantes da região da Praia Grande. Por fim, foi entregue à coordenação do curso de Produção Cultural o projeto escrito e o relatório de atividades e, no ano de 2017 formou-se em São Luís, a primeira turma de Produção Cultural de São Luís, eu obtive minha certificação de Técnica em Produção Cultural.

Refletindo sobre minha jornada no curso de licenciatura em teatro, observei que a partir dessas experiências, o caminho a ser trilhado desde a criação de uma proposta cênica até sua eficaz realização, demandam uma série de ações que são interpretadas como complexas e burocráticas, principalmente para os grupos de teatro em início de formação quanto para os alunos recém-formados.
Diante disso, o campo da Produção Teatral entrou nos meus projetos e pelas referências bibliográficas sobre o assunto em São Luís. Diante disso se faz necessário contextualizar a história do teatro em São Luís, afim de compreender como o Teatro se desenvolveu ao longo da história, logo o seguinte subcapítulo é um recorte da história das Práticas Teatrais realizadas em São Luís/MA.







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